Como antigo residente em Paris, onde fui estudante da École des Hautes Études en Sciences Sociales, até ao nível de passagem do primeiro ao segundo ano do então doutorado de terceiro ciclo e onde vivi maio 68, nunca mais deixei de acompanhar a vida política e cultural francesa, pelo interesse que ficou em mim, e sua vida econômica por obrigação profissional.
" Esprit " é a única revista que leio desde a década de 60 (ou procuro ler, têm havido longos períodos em que a distância e a censura em partes do mundo me impediram). Grande parte dos autores que cito nos meus textos são franceses.
Sempre que vou à Europa incluo a França no roteiro. Sei que a sociedade francesa tem um polo destrutivo interna e externamente, tem também um polo com perfil e compromisso indispensável à defesa da liberdade no mundo e tem ainda polo - talvez o maior - situado entre ambos.
Portanto, conheço muito bem a França e tenho motivos mais que suficientes para reagir àquilo que se diz e se torna público nos debates franceses. Reajo para mim próprio. Mas esta manhã, por curiosidade, fui ver o que é a revista " Front Populaire" e li o editorial de Michel Onfray " Le hors-jeu civilisationnel de l' Europe" e o artigo " Le 'complexe caribéen' de l' Occident", de Max-Erwan Gastineau
Os dois textos têm em comum designarem a soma nao só da História e cultura francesas, mas acrescentam a psicologia, como " identidade", ou seja, a ideologia de gueto que sublinha os detalhes específicos de povos e sociedades em detrimento dos termos comuns entre todos os humanos.
Sinceramente, a História da França - antigamente ou mais recentemente - é tão determinada de fora de suas fronteiras e tem sido determinante para outros continentes e sociedades, que me parece impossível fazer dela um caso à parte. Essas determinantes estão em quase todas as Histórias do mundo.
Da mesma forma a trajetória cultural da França é, como todas as culturas, plena de dar-receber, que não vejo o sentido de chamar " identidade " à soma das duas. Quanto à psicologia me parece ridículo atribuir-lhe contornos nacionais: traumas psicológicos ou capacidades psicológicas não têm fronteiras geográficas.
Ao longo de séculos, o que o mundo vem construindo são sociedades, algo bem diferente do muro identitário que, aliás, procura fragmentar as sociedades, mesmo dentro de cada uma. Apesar das guerras, desigualdades e opressões, temos nos aproximado mais uns dos outros e outras, em larga medida graças à luta contra as guerras, desigualdades e opressões. E continuamos.
O primeiro texto ataca o que considera como " projeto civilizacional de crioulização infeliz". A apresentação do segundo diz que o tal " complexo caribenho" é um "reflexo anti- identitario que pode causar nossa ruína".
Não consigo ver onde está a infelicidade da crioulidade ou crioulização. Quem quiser faz parte dela, quem preferir considera-a como um dos muitos aportes culturais, quem não quiser ou nem saber do que trata, deixa para lá.
Não é wokismo nem na sua versão " esquerdista" nem na " direitista".
A ideologia identitária tem sempre esses dois elementos: apresenta os Outros e as Outras (salvo quando lhe convém) como ameaça e acaba quase sempre constituindo versão atualizada do velho racismo ou cria novas fragmentações racificadas (no ocidente, oriente, norte, sul).
Fator de isolamento, portanto, de atraso (que a Europa sente hoje com desespero) é isto que provoca ruína, inclusive no Ocidente que, por um lado é aporte de primeira grandeza à civilização universal e, por outro lado, conduz a mais perigosa guerra deste momento, entre países e blocos dele próprio.
São só notas de começo da tarde deste domingo aqui em Niterói. As duas imagens são de I.A.
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